O aproveitamento de resíduos agroindustriais é uma estratégia importante para enfrentar um dos maiores desafios globais: a perda e o desperdício de alimentos.
Segundo estimativas da ONU, cerca de 1/3 de toda comida produzida no mundo é perdida ou desperdiçada, gerando impactos negativos no meio ambiente, na economia e na segurança alimentar. Mas o que isso tem a ver com ingredientes funcionais e saudáveis?
Neste artigo, vamos falar sobre como o aproveitamento de resíduos pode se transformar em inovação e o papel da ciência brasileira nesse processo.
Perda e desperdício: qual a diferença?
A perda e o desperdício de alimentos estão entre os principais desafios globais identificados pela Organização das Nações Unidas (ONU), integrando o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 12: Produção e Consumo Responsáveis.
Estima-se que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos sejam descartadas todos os anos, número que se mantém há pelo menos uma década. Apesar de parecerem sinônimos, perda e desperdício ocorrem em etapas diferentes da cadeia:
- Perda acontece entre a produção e o processamento — durante a colheita, manuseio, transporte, armazenamento ou industrialização.
- Desperdício se refere ao descarte de alimentos próprios para consumo nas etapas finais, como no varejo, em restaurantes e nas casas das pessoas.
Esses descartes representam uma oportunidade de aproveitamento de resíduos que podem gerar benefícios econômicos, ambientais e nutricionais.
Resíduos agroindustriais: um problema — e uma oportunidade
Boa parte do que é perdido nas etapas de produção e processamento se transforma em resíduos agroindustriais. Isso inclui cascas, bagaços, grãos defeituosos e outros subprodutos que, muitas vezes, são descartados sem nenhum aproveitamento — embora ainda tenham valor nutricional e funcional.
Por exemplo:
A pele do amendoim representa cerca de 3% do peso do grão e é normalmente descartada. Uma produção global de aproximadamente 35 milhões de toneladas de amendoim por ano gera mais de 1 milhão de toneladas de pele, que podem causar impacto ambiental.
Esse número é ainda maior quando pensamos na cadeia de produção de laranja, café e feijão…
- O bagaço da laranja, gerado após a extração do suco, é um resíduo volumoso e subutilizado.
- Durante a colheita de grãos como café e feijão, muitos frutos são considerados defeituosos e acabam fora da cadeia alimentar.
Esses resíduos podem, inclusive, contribuir para a emissão de gases de efeito estufa se não forem destinados corretamente — agravando ainda mais os impactos ambientais da cadeia de alimentos.
Aproveitamento de resíduos e upcycling na indústria de alimentos
Transformar resíduos agroindustriais em ingredientes de alto valor agregado já é uma realidade — e essa tendência tem nome: upcycling.
O termo vem ganhando destaque na indústria de alimentos para definir processos que utilizam subprodutos como cascas, bagaços e grãos descartados, convertendo-os em novos ingredientes com valor funcional e comercial.
Com o avanço de tecnologias de extração, purificação e processamento, é possível obter extratos ricos em compostos bioativos, como os fenólicos com ação antioxidante, ou ainda fibras solúveis com potencial prebiótico.
Nesse sentido, Ingredientes upcycled ajudam a reduzir a perda, substituem aditivos artificiais como antioxidantes e corantes sintéticos, e agregam valor aos alimentos — do ponto de vista nutricional, tecnológico e ambiental.
Ingredientes funcionais e saudáveis: inovação com propósito
As transformações na indústria de alimentos não se limitam à redução de perdas e ao uso mais eficiente dos recursos. Elas também estão profundamente conectadas à busca por ingredientes que promovam a saúde, se encaixem em tendências de saudabilidade e ofereçam alternativas mais sustentáveis.
É nesse contexto que surgem os ingredientes funcionais: substâncias que, além de seu valor nutricional básico, contribuem com benefícios adicionais para o organismo, como ação antioxidante, anti-inflamatória ou prebiótica. Quando produzidos com tecnologias que priorizam o menor impacto ambiental possível, esses ingredientes também atendem às exigências por transparência, rastreabilidade e clean label.
A inovação brasileira vem combinando ciência, sustentabilidade e tecnologia de alimentos para criar soluções que respondem ao novo perfil de consumo — mais consciente, mais exigente e mais alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Da pesquisa ao mercado: ciência brasileira que transforma
Por trás de cada ingrediente funcional ou solução sustentável, existe um longo caminho de pesquisa, testes e validações. Transformar descobertas científicas em inovações aplicáveis é um dos grandes desafios — e também uma das maiores contribuições da ciência para a sociedade.
Quando uma tecnologia desenvolvida em laboratório chega ao mercado, ela carrega não apenas conhecimento acumulado, mas também potencial para gerar valor econômico, reduzir impactos ambientais e melhorar a qualidade de vida das pessoas.
O projeto PBIS faz parte dessa transformação e já entrega resultados concretos: tecnologias upcycling desenvolvidas por instituições públicas brasileiras e prontas para chegar à indústria. Confira nos textos abaixo como a pesquisa nacional pode impulsionar a inovação sustentável na cadeia de alimentos.
Principais referências
COSTA, N. A. et al. Investigating the hypoglycemic potential of phenolic-rich extracts for upcycling into sugary processed foods. ACS Food Science & Technology, v. 5, p. 327–335, 2025.
FAO. Thinking about the future of food safety – A foresight report. 2022.
GARCIA, E. E. C. et al. (Ed.). Brasil Food Safety Trends 2030: transformações, tendências e desafios para a governança e gestão da segurança dos alimentos. 1. ed. Campinas – SP: ITAL, 2023.
ONU. The Sustainable Development Goals Report 2022. 2022.
SARKER, A et al. A comprehensive review of food waste valorization for the sustainable management of global food waste. Sustainable Food Technology. DOI: 10.1039/D3FB00156C.
Programa das Nações Unidas para o Ambiente (2021). Food Waste Index Report 2021 (Relatório do Índice de Desperdício Alimentar 2021). Nairobi.
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