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Chocolate ao leite ganha opção antioxidante

Nutricionista usa café verde descartado para enriquecer o doce com polifenóis

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Segundo Julia Millena Silva, preservar o sabor do chocolate ao leite era uma tarefa fundamental para a pesquisa

Para que o chocolate ao leite tenha a cremosidade e o sabor caramelado que atrai tantos consumidores, é preciso que a proporção de cacau seja reduzida em sua fórmula e o leite seja adicionado a ela. Essa receita, embora o torne mais palatável que o chocolate amargo, reduz seu teor de compostos fenólicos – substâncias que conferem ao cacau e ao chocolate amargo propriedades antioxidantes bioativas. Buscando solucionar essa equação, a nutricionista Julia Millena Silva desenvolveu em sua pesquisa de doutorado, realizada na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, um chocolate ao leite funcional, cujo potencial bioativo supera o de chocolates amargos disponíveis no mercado brasileiro. O estudo foi realizado em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital).

A produção do chocolate ao leite funcional é fruto de um projeto da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS). Trata-se de uma iniciativa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), encampada pelo seu primeiro Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) voltado à área alimentar, instalado no Ital. O programa reúne profissionais do setor público, de indústrias privadas e do terceiro setor, além de cientistas. Conta, ainda, com o patrocínio de nove empresas parceiras que têm acesso às descobertas em primeira mão, entre outros benefícios.

Um dos temas prioritários para o PBIS que serviu de ponto de partida para a pesquisa é a necessidade de desenvolver alternativas com maior valor agregado para o café verde defeituoso que acaba sendo produzido junto com cafés especiais. “Estamos dando vazão a um coproduto agroindustrial da qual somos líderes mundiais. Isso significa dar a oportunidade de agregar valor à cadeia do café, que no Brasil é importantíssima e envolve produtores de diversos tamanhos”, comenta Juliana Alves Macedo, professora da FEA que orientou o doutorado juntamente com Gisele Camargo, pesquisadora do Ital. “Para os pequenos produtores, escoar essas sobras e encontrar uma utilização de alto valor agregado é um problema”, afirma.

Silva revela que seu objetivo principal era produzir um ingrediente funcional que pudesse ser aplicado em diferentes matrizes alimentares e tornar o produto final mais interessante nutricionalmente. Encontrados naturalmente em diversos vegetais, como o cacau, os compostos fenólicos apresentam ação antioxidante, combatendo a ação de radicais livres — átomos e moléculas responsáveis pela degradação celular, associados a doenças crônicas não transmissíveis como processos inflamatórios permanentes e câncer. No Brasil, uma das principais fontes desses compostos é o café.

“Temos acesso a fontes extremamente ricas, que possuem um grande potencial para melhorar a saúde em geral ou para contribuir no aporte de antioxidantes para a prevenção de doenças crônicas. O café verde é uma delas: é uma matéria-prima de primeiríssima qualidade”, frisa Macedo, que coordena uma linha de pesquisa no PBIS sobre o uso de compostos fenólicos para a produção de alimentos saudáveis.

Outra prioridade da pesquisadora era desenvolver um chocolate ao leite que fosse tão antioxidante quanto um chocolate com amargor acentuado, porém acessível, palatável e bem aceito pelo público geral. “A ideia era que o chocolate ao leite conseguisse ter um teor final maior de [compostos] fenólicos e agregasse mais saúde [ao consumidor]”, explica Silva, lembrando o crescente interesse da população por alimentos enriquecidos com substâncias bioativas, ou seja, que garantem algum benefício ao corpo.

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Para a professora Juliana Alves Macedo, além de enriquecer nutricionalmente o chocolate, pesquisa agrega valor à cadeia produtiva do café

Mão na massa

Parte da pesquisa foi empreendida no Laboratório de Compostos Bioativos da FEA, e outra parte no Centro de Tecnologia de Cereais e Chocolate (Chocotec) do Ital. Responsável pelo desenvolvimento completo do produto, da primeira à última etapa, Silva trabalhou com frutos doados pela Cooperativa Minas Sul como matéria-prima. Após extrair os compostos fenólicos do café, utilizando solventes limpos, a nutricionista partiu para o aumento de escala de produção do extrato — da bancada para a planta-piloto —, garantindo perfil fenólico e capacidade antioxidante similares nesse processo.

Antes de obter os extratos de polifenóis encapsulados, ela conduziu um estudo para definir o agente encapsulante adequado para revestir e proteger o extrato. “Muitas vezes, esses compostos são sensíveis à luz, ao calor e a vários outros fatores”, diz a pesquisadora. “A encapsulação tem uma função dupla. A primeira é de estabilizar os fenólicos e permitir o uso em um prazo mais longo. A segunda é a de proteger a nossa boca do composto fenólico. Ou seja, encapsulando, conseguimos minimizar o impacto do sabor e da adstringência”, detalha a orientadora.

Silva estudou os níveis de compostos fenólicos do chocolate amargo disponíveis no mercado brasileiro, visando definir as quantidades a serem utilizadas. Ela esclarece que preservar as características sensoriais que tornam o chocolate ao leite agradável ao paladar era fundamental. “O café verde possui naturalmente um amargor. Era importante mascarar esse sabor para que não ficasse perceptível no produto final.”

Por fim, a nutricionista realizou uma simulação da digestão in vitro para examinar se os antioxidantes acrescentados ao chocolate estariam disponíveis para absorção de forma esperada. Seguindo a metodologia padronizada, Silva simulou os processos de digestão oral, gástrica e intestinal. O experimento revelou que, em comparação com o chocolate amargo padrão, seu produto conseguiu aumentar a quantidade de compostos fenólicos absorvidos. “Também conseguimos conservá-los: quando se olha para a concentração de fenólicos no intestino, percebe-se que é parecida com a que existia inicialmente [na cápsula].”

“Julia fez um estudo com materiais encapsulantes diferentes e conseguiu chegar a um produto [o extrato de compostos fenólicos] estável, de fácil dispersão, que passa para a massa de chocolate de maneira imperceptível. Também não é sentido na textura e não confere um sabor marcante. Nas maiores doses que testamos, seu sabor é muitíssimo leve”, explica Macedo, destacando que o extrato feito pela nutricionista tem potencial para ser um ingrediente funcional 100% brasileiro.

Artigo originalmente publicado na Revista Jornal da Unicamp – Edição 738 | Campinas, 02 a 16 de março de 2026
Para saber mais sobre essa pesquisa acesse: