O feijão carioca faz parte da alimentação dos brasileiros há gerações. Presente no prato do dia a dia, ele é reconhecido principalmente como uma importante fonte de proteínas, fibras e outros nutrientes. Mas o que pouca gente imagina é que esse mesmo grão também pode dar origem a ingredientes para bebidas plant-based, maioneses e outros alimentos produzidos pela indústria.
O que faz o feijão carioca ser uma boa matéria-prima para a indústria?
O crescimento do mercado de proteínas vegetais aumentou a busca por ingredientes capazes de substituir ou complementar proteínas de origem animal. Hoje, muitas dessas formulações ainda dependem da soja ou de ingredientes importados, como proteínas de ervilha e arroz.
Foi justamente esse cenário que motivou o início da pesquisa.
“Com a grande demanda por proteínas vegetais e a dependência do Brasil da importação desses ingredientes, buscamos uma fonte de produção nacional“, explica a pesquisadora Dra. Mitie Sadahira, coordenadora da Plataforma IV do PBIS.
A escolha pelo feijão carioca não foi por acaso. Além de ser uma cultura amplamente produzida no Brasil, ele pertence ao grupo das pulses, leguminosas que apresentam características interessantes para processos de fracionamento a seco, uma tecnologia considerada mais sustentável quando comparada aos métodos convencionais de obtenção de proteínas vegetais, por reduzir significativamente o uso de água durante o processamento.
Quando a pesquisa encontra uma solução que não estava no plano inicial
O objetivo inicial do projeto era desenvolver uma farinha rica em proteínas. Mas, como acontece frequentemente na pesquisa científica, os resultados abriram novas possibilidades.
Durante o processo de fracionamento, os pesquisadores obtiveram também uma segunda fração rica em amido. Em vez de tratar esse material como um subproduto sem valor, a equipe decidiu investigar suas aplicações.
“O foco no início do projeto era a farinha proteica. Porém, vimos que também tínhamos a farinha amilácea. Para aproveitar integralmente o grão e evitar desperdícios, decidimos estudar essa aplicação“,
Essa decisão ampliou o alcance da pesquisa. Enquanto a farinha proteica pode ser utilizada em alimentos com maior teor de proteínas, a farinha amilácea também apresenta potencial para aplicações em diferentes produtos, como análogos de queijo e sobremesas, contribuindo para o aproveitamento praticamente integral do feijão carioca.
Muito além da proteína: o desafio é fazer o ingrediente funcionar no alimento
Extrair proteína é apenas uma etapa do processo. Para que um ingrediente possa ser incorporado pela indústria, ele precisa apresentar propriedades tecnológicas capazes de contribuir para a textura, a cremosidade, a estabilidade e outras características importantes dos alimentos.
Foi pensando nesse desafio que a equipe também estudou formas de funcionalizar as proteínas obtidas por meio de tecnologias como moinho de esferas. O objetivo é melhorar o desempenho dessas proteínas para que possam substituir, em diferentes aplicações, ingredientes tradicionalmente obtidos de fontes animais.
Os resultados já permitiram a aplicação da farinha proteica em bebidas fermentadas e em pós para preparo de cappuccino, demonstrando o potencial desse ingrediente em diferentes categorias de alimentos.
Quando a pesquisa está pronta para chegar à indústria
O projeto alcançou um dos seus principais objetivos: estruturar um pacote tecnológico pronto para transferência de tecnologia.
Segundo a Dra. Mitie Sadahira, a obtenção da farinha proteica já pode ser escalonada, uma vez que existem equipamentos disponíveis no mercado para produção em larga escala utilizando o processo de fracionamento a seco.
Isso significa que a pesquisa ultrapassa os limites do laboratório e passa a representar uma oportunidade concreta para empresas interessadas em desenvolver ingredientes nacionais para alimentos plant-based e outras aplicações.
Esse é justamente o propósito do PBIS: transformar conhecimento científico em soluções prontas para serem incorporadas pela indústria, aproximando pesquisadores, empresas e consumidores.
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