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O que faz uma pesquisa científica chegar à indústria de alimentos?

Todos os anos, milhares de pesquisas são desenvolvidas em instituições brasileiras de ensino superior e de ciência e tecnologia. Muitas delas geram conhecimento relevante, mas apenas uma parte consegue ultrapassar os limites dos laboratórios e chegar ao mercado na forma de novos produtos, processos ou tecnologias.

Essa distância entre a pesquisa e sua aplicação foi justamente o ponto de partida para a criação da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), Núcleo de Pesquisa Orientada a Problemas (NPOP) liderado pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e empresas parceiras.

Desde o início, esse projeto interinstitucional foi estruturado para responder a demandas reais da indústria de alimentos e aumentar o potencial de transferência de tecnologia.

Pesquisas que já nascem pensando na aplicação

Em muitos projetos científicos, a aplicação prática surge apenas ao longo do desenvolvimento da pesquisa. O NPOP-PBIS, no entanto, não poderia seguir essa lógica. O projeto foi concebido para que pesquisadores, docentes, bolsistas acadêmicos e profissionais de diferentes áreas do conhecimento trabalhassem desde o início para desenvolver tecnologias já com potencial de aplicação na indústria de alimentos.

Segundo a diretora de Programação de Pesquisa e vice-coordenadora do Ital, Dra. Gisele Camargo, pesquisadora e gestora executiva do projeto, essa foi uma das principais mudanças na forma de conduzir a pesquisa. “O final é a gente ter um resultado que alguém queira utilizar e que tenha valor para a sociedade e para o setor produtivo”, frisa.

Para isso, o projeto incorporou metodologias de gestão orientadas a resultados, que ajudaram pesquisadores de diferentes instituições e especialidades a acompanhar objetivos comuns e visualizar como cada etapa contribuía para a construção das tecnologias finais.

Conheça as plataformas do PBIS
Síntese de lipídios

Obtenção de extratos fenólicos

Prebióticos e proteínas doces

Novas fontes de proteínas vegetais

Quando diferentes áreas trabalham para resolver o mesmo problema

Desenvolver um novo ingrediente para alimentos envolve muito mais do que química e tecnologia de alimentos. São necessários conhecimentos em biotecnologia, engenharia de processos, microbiologia, análise sensorial, nutrição e diversas outras áreas.

No PBIS, essa integração foi organizada por equipes multidisciplinares que hoje reúnem cerca de 60 pesquisadores, desde estudantes de iniciação científica até pós-doutorandos.

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Essa estrutura permite que diferentes especialistas acompanhem a evolução de cada pesquisa e façam suas contribuições ao longo do projeto. Em vez de atuarem de forma isolada, as equipes compartilham informações e trabalham de forma mais eficiente para solucionar desafios tecnológicos.

A indústria participa antes mesmo da pesquisa terminar

Outro diferencial do projeto é o contato constante com profissionais que atuam em empresas do setor de alimentos.

Essa aproximação vai muito além do interesse em utilizar a tecnologia pronta. Ao longo da pesquisa, as empresas colaboram trazendo demandas reais, fornecendo matérias-primas, compartilhando experiências e até indicando equipamentos que podem ser avaliados pelos pesquisadores.

Essa interação ajuda a direcionar a pesquisa para problemas concretos da indústria e aumenta as chances de que as tecnologias desenvolvidas possam, de fato, ser incorporadas ao setor produtivo e atenderem as demandas do consumidor.

Transferência de tecnologia começa muito antes da patente

Quando se fala em inovação, é comum pensar apenas em patentes. Mas, na prática, a transferência de tecnologia pode acontecer de diferentes maneiras.

Ao longo dos primeiros anos do projeto, cada plataforma do PBIS estruturou pacotes tecnológicos que reúnem ingredientes, processos, conhecimentos técnicos e diferentes possibilidades de aplicação na indústria. Dependendo da tecnologia, essa transferência pode ocorrer por meio de patentes, licenciamento de know-how, assessoria técnica especializada ou até dar origem a futuras startups e spin-offs.

“As plataformas não têm um caminho só, uma rota tecnológica. Elas têm diferentes rotas tecnológicas que devem ser baseadas na demanda ou na aplicação daquele ingrediente.”

Dra. Gisele Camargo, pesquisadora e gestora executiva do NPOP-PBIS

Essa visão amplia o potencial de aplicação dos resultados e aproxima ainda mais a pesquisa das necessidades do mercado.

Um projeto orientado para gerar impacto

No NPOP-PBIS, sustentabilidade, saudabilidade e segurança dos alimentos deixaram de ser objetivos isolados para se tornarem requisitos presentes em todas as etapas do desenvolvimento tecnológico.

Segundo Gisele, esses princípios fazem parte da própria concepção do projeto e orientam desde a escolha das matérias-primas e dos processos até o desenvolvimento e a aplicação dos ingredientes.

Mais do que viabilizar novos ingredientes, alimentos e bebidas, o PBIS mostra que a forma como uma pesquisa é planejada também influencia seu potencial de gerar inovação, ou seja, a produção científica não termina com a publicação de artigos: ela continua na concretização de tecnologias prontas para serem transferidas à indústria, fortalecendo a conexão entre pesquisadores, empresas e sociedade.

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